Eu realmente não durmo… ou passei a acreditar que sou uma pessoa que não dorme?

Você já parou pra contar quantas vezes disse “eu não durmo” essa semana… e quantas dessas vezes isso era, de fato, verdade?

“Eu não durmo.” Essa é uma frase que escuto com frequência no consultório. Muitas vezes, ela vem acompanhada de outras semelhantes: “Acordei às duas da manhã e não consegui dormir mais”, “Meu sono é horrível”, “Eu nunca durmo direito.” Mas existe uma diferença importante entre essas frases. Uma coisa é dizer “Hoje eu dormi mal.” 

Outra, bem diferente, é afirmar “Eu não durmo.” Pode parecer apenas uma forma de falar, mas as palavras que usamos ajudam a organizar a maneira como interpretamos nossas experiências.

Imagine alguém que teve uma noite ruim de sono. No dia seguinte, ela comenta com um amigo que dormiu mal. Na semana seguinte, acontece novamente. Depois, mais uma vez. Pouco a pouco, aquelas noites deixam de ser episódios isolados e passam a formar uma história. E essa história começa a ser repetida: “Eu nunca durmo”, “Sempre acordo de madrugada”, “Meu sono é assim.” Sem perceber, a pessoa deixa de descrever o que aconteceu e passa a falar sobre quem acredita ser.

Isso não significa que o problema seja “apenas psicológico” ou que dificuldades para dormir não existam. Elas existem e, quando persistem, merecem uma avaliação adequada. O ponto é outro: quando repetimos uma mesma narrativa por muito tempo, nosso cérebro tende a tratá-la como uma explicação sobre nós mesmos. 

A partir daí, é comum prestarmos mais atenção às experiências que confirmam essa história do que àquelas que a contradizem. Se uma noite foi tranquila, ela passa quase despercebida. Mas basta uma madrugada acordada para surgir o pensamento: “Está vendo? Eu não durmo.”

Essa forma de interpretar a experiência pode aumentar a preocupação com o próprio sono. E quanto mais preocupação existe, maior costuma ser a dificuldade de simplesmente relaxar e permitir que o sono aconteça naturalmente.

Por isso, vale a pena observar a linguagem que você usa consigo mesma. Em vez de dizer “Eu não durmo”, talvez seja mais fiel à realidade dizer “Hoje meu sono não foi como eu gostaria” ou “Tenho enfrentado dificuldades para dormir em alguns momentos.” Percebe a diferença? Nenhuma dessas frases nega o que aconteceu. Elas apenas evitam transformar uma experiência em uma definição sobre quem você é.

Às vezes, pequenas mudanças na forma como falamos conosco não mudam a realidade imediatamente, mas podem mudar a maneira como nos relacionamos com ela. E isso, muitas vezes, já é um excelente começo.

E você? Quando fala sobre o seu sono, costuma descrever uma noite ruim… ou acaba dizendo que “nunca dorme” ou que “é assim mesmo”? Conte nos comentários. Talvez observar a forma como você fala sobre o seu sono seja o primeiro passo para enxergá-lo de uma maneira diferente.

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